Artesanato

O concelho de Oliveira do Bairro é rico em artesanato popular, apresentando uma grande variedade de formas, na sua maior parte ligado às actividades rurais. 
 
As actividades artesanais mais relevantes são a cestaria, a fabricação de esteiras de bunho, a latoaria, o empalhamento de garrafões, tapetes de farrapos, rodilhas, cerâmica e pintura em azulejo.
 
A arte de tecer, outrora muito usual, tem vindo a decair. Hoje são muito poucas as mulheres que possuem tear rústico e se dedicam a esta tarefa. A tecedeira tece cobertas de trapos ou de farrapos, passadeiras e pequenos tapetes, com os novelos de farrapos de várias cores, feitos dos tecidos de roupas velhas, lavados e rasgados, muitas vezes em momentos de descanso ou em trabalhos ao serão nas longas noites de Inverno. 
 
A esteira, nascida da habilidade das artesãs e que pode ter até dois metros de comprimento por um e meio de largo, feita com bunho, uma espécie de junco e tabua, colhidos nos pântanos, já teve os seus dias grandes nas camas de gente humilde e trabalhadora ou cobrindo montes de milho madeiro pelas eiras. 
O visitante encontrará no concelho de Oliveira do Bairro estas peças artesanais e em alguns lugares do concelho poderá ainda observar os artesãos a trabalhar. 
 
Actividades Artesanais 
Em cada aldeia do concelho foram-se instalando as pequenas oficinas de actividades muito variadas, um complemento absolutamente necessário para qualquer dos trabalhos agrícolas.
 
Junto às margens do Cértima e da Pateira, onde crescia o bonho ou bunho e florescia a tabua também conhecida por espadana, desenvolveu-se a fabricação caseira e artesanal de esteiras e de esteiralhos, executada por mulheres, cujo produto era vendido em toda a região.
 
Em qualquer aldeia, havia também a manufactura dos cestos necessários para as tarefas dos campos. Na sua confecção, era utilizado o vime ou verga com casca e os cesteiros faziam os oblongos cestos canastros, de duas asas, muito usados nas vindimas; o cesto de aro, para as utilizações individuais mais variadas; o cesto poceiro, redondo e mais fundo, também usado na vindima - e, no Troviscal, por alturas da festa de São Bartolomeu, sempre se realizou a chamada feira dos cestos ou dos poceiros, a 24 de Agosto. Actualmente, o cesteiro, de simpática actividade, desapareceu praticamente. 
 
O latoeiro, que animava certas ruas das povoações com o som do bater a lata na bigorna, calou os seus ruídos habituais, porque o produto do trabalho saído das suas mãos passou a ser fabricado noutros lugares e com outros materiais mais leves e mais duradoiros. Deixaram de se ver muitos utensílios antigamente indispensáveis, como as candeias de azeite e de petróleo; desapareceram os regadores e os baldes de folha, os cântaros para os trabalhos de adega, os cabaços para a rega, os púcaros de rabo para a cozinha, os alcatruzes para os poços e tantos outros objectos que foram utilíssimos e, normalmente, eram pendurados à porta das oficinas para exposição. 
 
O tamanqueiro que, aproveitando o cabedal dos tamancos e das chancas já gastos pelo uso, substituía os paus limados pelo contacto de tanto andar. 
O ferreiro, em cuja oficina se mantinha a forja sempre acesa, fabricava carros de bois, carroças e carros-de-mão, engenhos de ferro para tirarem água dos poços, charruas, charruecos, arados e grades; aí também se fabricavam as peças para o arranjo de qualquer alfaia agrícola. Em zona de vinho, cada lavrador possuía a sua adega, com tonéis, pipas, quartolas, barris, etc. Era, pois, lógico, que pequenas tanoarias por aqui se instalassem. Na verdade, houve tanoeiros que não só fabricavam o vasilhame - tonéis, pipas, quartos - as dornas e as tinas, como se dedicavam ao arranjo de outras quando necessitavam de aros ou da substituição de velhas aduelas e de tampos carcomidos pelo vinho e pelo caruncho de muitos anos de utilização. Além disso, e enquanto não foram substituídos por funis de folha, faziam-nos de pequenas aduelas de madeira apertadas com arcos de ferro. 
 
Numa ou noutra pequena oficina, trabalhava-se o barro. O oleiro possuía a sua roda, também chamada jaulo, que movimentava com o pé, enquanto as mãos, em plano superior, davam forma a recipientes utilitários tradicionais, os quais eram utilizados em larga escala nas cozinhas da aldeia: panelas de barro, caçoilos, pingadeiras, bacias, malgas, jarras, cântaras e quejandos - que, depois eram levados a cozer em rudimentares fornos metidos na terra mas devidamente preparados para o efeito. Estes artífices, porém, também eram convidados para construírem os grandes bojos dos fornos de barro, cuja boca dava para a lareira da cozinha e nos quais mais frequentemente se cozia a broa ou boroa, a bola, o pão-trigo caseiro como as padas e as fogaças; aí se assavam também várias peças de carne em dias mais festivos. 
 
Ora, tanto o latoeiro como o oleiro quase vieram a desaparecer porque os objectos que produziam com materiais deterioráveis têm sido substituídos por outros similares de alumínio, de esmalte e sobretudo de plástico, que passou a estar presente em todas as actividades que o exigem. 
 
Em algumas aldeias do concelho, sempre houve casas rurais que possuíram o seu tear, em cujas tarefas de tecelagem, a mulher - avó, mãe, filhas - ocupava grande parte do seu tempo, aquele que não era destinado a outros trabalhos. Teceu-se o linho mourisco que outrora se cultivou e preparou, a lã enquanto manteve rebanhos de ovelhas, sendo apoiada pelos pisões movidos a água; após o seu declínio, a mulher dedicou-se à tecelagem de mantas e passadeiras de tiras de trapos, urdidas com fios de algodão. Há ainda um outro caso que resistiu, mas que avança para o desaparecimento inevitável, ainda que as Casas do Povo e as colectividades de tipo Recreativo e Cultural, mostrando interesse pelo seu ressurgimento, tenham reactivado essas actividades artesanais e tradicionais. A tecedeira continua a ser uma figura simpática que enriquece os nossos quadros aldeãos, de tipo etnográfico e ambiental. 
 
Terra de vinho e pão; terras de videiras e de cereais. Era natural que os moinhos da mais variada espécie e os respectivos moleiros dessem colorido e vida à paisagem do nosso concelho. E assim foi. Era necessário farinar para o fabrico do pão. Os moinhos, particularmente os movidos a água, abundavam à beira das nossas correntes, exercendo a sua função secular de reduzir o grão a farinha para alimento das respectivas populações. Mas os nossos moinhos e os respectivos moleiros também foram levados na voragem dos tempos, arrastados e absorvidos pelos novos processos tecnológicos. Raras excepções teimam em persistir ou por uma questão de tradição familiar ou por meros motivos de carácter cultural. 
 
O sapateiro remendão foi uma outra figura presente nos nossos povoados e ainda resiste. Se outrora era ele quem fazia sapatos e botas por medida, além dos arranjos do calçado em geral, hoje, quase se limita a fazer consertos, cosendo e pondo meias-solas. O calçado é caro e, quando as solas se gastam, ainda vale a pena mandá-lo consertar. É por isso que ainda o vamos encontrando nas nossas aldeias. 
 
O trabalho privado da costureira ainda se vai mantendo entre nós, nas freguesias rurais. É uma figura que passa a vida na confecção do vestuário por medida para a mulher ou para a rapariga do campo: as saias, as blusas, os corpetes e outras peças mais delicadas saíam e saem das suas mãos. A matéria-prima era normalmente adquirida nas feiras da região e numa ou noutra casa de venda de tecidos: peças de chita, de algodão, de lã, etc, das cores mais variadas, conforme os gostos e as intenções do próprio uso. 
 
Se a costureira ainda existe, não é menos verdade que o alfaiate da aldeia, fazendo também fatos por medida para o homem, prevalece nas nossas povoações. Se hoje, a maior parte das pessoas adquire roupa já feita nas lojas de moda, por toda a parte instaladas - vestidos, saias, blusas, fatos completos, calças e casacos, para homem e mulher - não podemos esquecer aqueles que nunca aderiram ao fato feito e têm o seu alfaiate ou a sua costureira privativos, de há longos anos, a quem encomendam toda a sua roupa. Além disso, já existem fábricas de confecção em série, como é o caso de "Canto Novo", na freguesia da Palhaça, e das confecções "Trovisco", na freguesia de Bustos. 
Em quase todas as povoações, surgiram, mais ou menos amplas, as oficinas de serração de madeiras. Era natural que assim acontecesse num território propício ao crescimento de vastas matas de pinheiros e de eucaliptos. 
E as carpintarias e as marcenarias mecânicas também por cá se foram estabelecendo, onde foi possível associar as nossas próprias madeiras e as madeiras mais rijas e duráveis importadas do estrangeiro. 
Esta nova preparação das madeiras corresponde a um surto notável de modernas construções habitacionais e dos próprios móveis que constituem os seus recheios. Outrora, os proprietários contratavam para suas casas marceneiros que trabalhavam individualmente e faziam a preparação de toda a madeira necessária à construção: portas, janelas, etc. Eram os chamados mestres e eram-no de facto na execução do produto da sua própria profissão. E, para a serração de barrotes, de grandes pranchas, de tabuões, etc, chamavam os reconhecidos serradores ambulantes que transportavam os seus pontais para fazer a burra, e a sua grande serra sempre manejada por dois indivíduos. 
Também em cada aldeia se instalavam pequenas serralharias com funções especiais, pois foram e ainda são de extrema utilidade na montagem e arranjos, em particular das bicicletas que, durante muito tempo, se tornaram o principal meio de locomoção mais rápido, para se vencerem distâncias mais ou menos longas entre os vários povoados. Com efeito, sendo o território do nosso concelho permanentemente ondulado e sem ladeiras muito íngremes, como, aliás, acontece em toda a Bairrada, a bicicleta foi o meio de transporte individual preferido por todas as pessoas e, conforme os elementos de família, em cada casa, havia sempre mais do que um exemplar de portas adentro. 
Mas serralharias orientadas para o conserto e fabricação de outros objectos de carácter indefinido, sempre necessários na casa dos lavradores, existiram e existem ainda entre nós, abarcando um leque bastante largo de utilidades. 
Preparando as nossas populações vastas porções de terrenos aráveis para o cultivo dos cereais, era natural que, além da cozedura do pão em cada casa em particular, tivesse surgido um certo número de mulheres, algumas das quais ainda existem, que, especializando-se na utilização das nossas próprias farinhas, fizeram das suas casas pequenas padarias artesanais, onde fabricavam um pão de trigo de sabor inigualável - as conhecidas padas de pão-trigo e as fogaças - que não só vendiam na sua própria casa mas também levavam, para venda, em grandes cestadas, às feiras e aos mercados da região. Sempre sobressaiu, em cada aldeia, o pão de uma ou de outra. Porém, com a vasta instalação das padarias de tipo moderno por todo o lado e com as novas medidas de limpeza que são exigidas a nível superior, em muitos casos, foram obrigadas a fechar as suas portas, o que consideramos uma grande perda, quanto à qualidade. Talvez os processos de fiscalização, exigindo maior limpeza, pudessem ter sido orientados de outro modo, concedendo certa liberdade para podermos usufruir da continuação deste bem perdido ou a perder totalmente. 
É que nem sempre as modernas padarias, apesar de tudo o que lhe é exigido, fabricam o alvo pão a que estivémos habituados - nunca semelhante ao das velhas padeiras; é muitas vezes um pão agradável mas onde o fermento especial impera, o que não está nas nossas tradições e talvez não seja tão saudável.
 
in "Terra Promissora - Oliveira do Bairro"